O primeiro semestre em mim

Não erro em dizer que o primeiro semestre ainda não terminou, pois até a meia-noite de hoje tenho, ainda, um último trabalho para entregar. E, como se não bastasse, seja por perfeccionismo ou por comprometimento, há memórias e mais memórias registradas no caderno, das atividades que participamos, que hei de colocar em ordem e em público, neste blog. 

Há algumas pérolas que tentam, seja por generosidade ou sabedoria, explicar o que se passou no primeiro semestre de 2015. A alegria de voltar à universidade, em um curso cuja identificação não seria possível explicar em palavras, apenas, foi entremeada por muitos problemas pessoais que impactaram - e ainda impactam - no meu desempenho e, sobretudo, pontualidade para com as atividades e aulas. E isso me frustra - não me consome em culpas, que com o tempo aprendi a não carregar - mas é inegável que eu me sinta um tanto constrangida. Bem, vamos às pérolas: "não há mal que sempre dure, nem alegria que nunca se acabe" - é uma verdade praticamente budista, mas a melhor, ou pelo menos, a que me faz rir de mim mesma é "urubu quando está sem sorte, o de baixo caga no de cima", dito e bem dito pela mãe da minha madrasta, uma alagoana que viveu 90 anos, teve 14 filhos e mais um sem-par de netos, e com eles toda a sorte de vivências e situações.

Desde que mudamos para o Rio Grande do Sul minha companheira entrou numa grande crise de transtorno bipolar, a qual já dura quase um ano. Ajustes de medicamentos, não-adaptação a uns, preferência a outros, pequenas fortunas gastas em pílulas, em consultas, uma pequena romaria até encontrar a psicóloga com quem tivesse vínculo, cortes no orçamento, nova mudança de casa em menos de doze meses, eu não sei como não pirei, foi praticamente uma pequena crise por semana, era porque eu não dormia junto para conseguir estudar, por insegurança, porque ela não conseguia ficar sozinha em casa quando eu ia às aulas.

De certa maneira, acredito que ter retornado aos estudos - e que conjugam tão bem com minha militância - foi muito terapêutico para mim, permitiu me afastar um pouco destes problemas e da dinâmica que consome até a última gota de sangue do vivente, e canalizar energia para um horizonte positivo. Puxa, isso é que é ser otimista hein? Encarar o Sistema Único de Saúde como algo bom, deafiador e próspero? Pois é, eu acredito nisso. Vivo em casa a prova do quanto é necessário que o sistema público de saúde se estruture, que a discussão sobre saúde se amplie, e que a atenção e assistência seja tão abrangente quanto se fizer necessária à população.

Nas minhas convicções espirituais, sei que não vim a este mundo a passeio, ainda que muito aprecie a paisagem. A compaixão, premissa da prática budista, segundo estudos da tradição, é mais que uma virtude: sua complexidade permitiu que fosse considerada um corpo sutil, entre os muitos corpos que temos. Sinto o quanto a profissão de sanitarista exige este componente, que integra sentimentos, pensamentos, ética e postura política para que sejam feitas as mudanças que precisam acontecer no mundo, porque NÃO É POSSÍVEL que convivamos com todo o mal que os seres humanos possam fazer uns aos outros sem tentar encontrar para isso algum remédio.

E como dizemos, ao final da meditação budista da tradição Nyingma: se há algum mérito gerado por todo este esforço, ao final deste semestre, dedico-o ao benefício de todos os seres.

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