Tempos convulsionantes... são tempos propícios à radicalidade, ou seja, voltar às raízes e às bases, fundando uma outra autopoiese resiliente.
O Fórum de Mulheres de Porto Alegre está a se rearticular, teremos as conferências de saúde da mulher nos três níveis e, em meio à idiotização que elege uma figura como Donald Trump e silencia diante do golpe de Temer/Cunha, a urgência se faz como o tempo de conjugação das ações.
Integrei a escrita do panfleto distribuído nas ruas do centro na jornada dos 21 dias de ativismo pelo fim de todas as formas de violência contra as mulheres, e fiz a arte final. Como trabalho final, apresentei um boletim sobre mortalidade materna no Rio Grande do Sul entre os anos de 2004-2014.
Sou um rato de ocupação. A primeira que vivi foi em 2008, quando da publicação dos decretos pelo então governador recém-empossado José Serra, que retirava a autonomia das universidades estaduais paulistas. Estudante de Artes Visuais na UNESP à época, pautava a criação de uma creche no campus do Instituto de Artes, o único de toda a universidade que não garantia este direito aos funcionários e funcionárias e, consequentemente, aos alunos e sobretudo, alunas.
Em 2011, o governo Dilma reduziu para 1/3 o valor destinado à pasta da Cultura, o que gerou uma série de discussões sobre a própria questão do financiamento das atividades culturais, a falta de uma política pública para o setor, dominado pelos tentáculos da lei Rouanet e a insaciável máquina da indústria cultural que se sobrepunha às formas populares de manifestação artística, para quem os recursos nunca chegam. Ocupamos a Funarte, em São Paulo, e foi uma das mais belas e potentes experiências que vivi, cuja desocupação foi o cortejo reproduzido abaixo. Eu sou a garota do stencil (grafite). Desta época, levo amigos mais que queridos até hoje.
Uma das memórias mais belas é a interpretação dada à lira de Qorpo Santo, gaúcho que fez história para o teatro, e que é uma figura icônica para a saúde mental. Quando se verá, novamente, pessoas cantando pelas ruas da maior cidade brasileira "Eu sou vida, eu não sou morte", como protesto à privatização e à exploração pelo capital?
Assim que se disseminaram as ocupações nas escolas secundaristas pelo Brasil, fui prestar meu apoio à escola pública mais próxima à minha casa, e não tardou para que as universidades públicas também fossem ocupadas. Consegui participar do começo e do fim da ocupação da Escola de Enfermagem e Saúde Coletiva, em meio a muitos atravessamentos e conflitos de minha vida pessoal.
Abaixo, segue uma construção textual de um release, elaborado para a UPP Saúde, Sociedade e Humanidades, sobre a OcupaEEnfSC:
A política como determinante social: a ocupação no campus Saúde
Durante o mês de dezembro de 2016, a Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi o centro de diversas discussões debatidas entre os alunos dos cursos de Enfermagem e Saúde Coletiva, durante as manifestações contra o governo
Acompanhando a onda de ocupações que ocorreram em diversos campi das universidades públicas, organizados em torno da indignação popular diante dos retrocessos propostos pela PEC 241/55, o movimento OcupaEEnfSC foi um marco na integração do corpo discente da unidade, sendo para a maioria dos participantes a primeira experiência de imersão em torno de discussões políticas e questões profundamente relevantes para a sociedade e o país. Durante o período em que permaneceram nas instalações do prédio, que se transformou em uma espécie de moradia coletiva, estudantes realizaram diversas atividades autogestionadas, dentre as quais aulas abertas, oficinas e rodas de discussão e assembléias, o que permitiu o maior contato com diferentes grupos de outras áreas do conhecimento, além de organizações não governamentais e coletivos.
Além de discutir a conjuntura sociopolítica e a crise institucional instaurada desde o golpe materializado através do impeachment da presidenta eleita Dilma Roussef, o processo vivenciado permitiu também a discussão aberta de questões relacionadas ao ensino dos cursos na unidade, sendo algumas bastante polêmicas, tais como o ordenamento e a exclusão dos alunos, em processos seletivos internos para bolsas e monitorias, de acordo com as suas visões políticas, o que configura, de certa maneira, uma forma de perseguição política. Questões de gênero também perpassaram fortemente o processo, já que a maioria dos ocupantes eram alunas dos cursos de Enfermagem e Saúde Coletiva, mas que também contou com a participação de alunos da Nutrição e Medicina. Até mesmo o nome da unidade foi rebatizado: passou a se chamar, entre a comunidade, de Escola de Enfermagem e Saúde Coletiva, que aguarda por ser formalizado. A ocupação produziu, durante a sua organização, um manifesto que encontra-se disponível em sua página na rede social (www.facebook.com/ocupaeenfsc).
Dentre as perspectivas originadas pela experiência, figura a formação de um coletivo formado por alunos da graduação e pós, aberto à participação de movimentos sociais e sociedade civil, de modo que possibilite articular e reacender os princípios do movimento sanitário durante o período de formação dos estudantes, constituindo também uma possibilidade de educação popular e educação permanente em saúde, militância e participação social na defesa do SUS e da saúde como um direito social, conforme previsto na Constituição Federal de 1988.
A ocupação, embora mal compreendida entre a própria comunidade universitária - o que denuncia a lacuna na formação política de muitos cursos das universidades públicas, enquanto proposta de resistência popular e construção da autonomia e soberania, constitui-se contemporaneamente como uma das mais potentes ferramentas de aglutinação em torno de um propósito social comum, e cuja dimensão apenas o tempo pode conferir.
"Um deserto não se atravessa sozinho. Diante destes cenários que tentam nos inundar de paralisia e conformismo anestesiando o que temos de mais precioso, ou seja, nossa direito a revolta, nossa potência de desejar, nosso dever para com nossa imaginação, neste ponto é sempre importante evocar o que nos lembra Ernst Bloch em sua trilogia Principio Esperança quando tenta discorrer sobre a função das utopias na historia da humanidade: “A consciência utópica quer enxergar bem longe, mas, no fundo, apenas para atravessar a escuridão bem próxima do instante que acabou de ser vivido, em que todo o DEVIR está a deriva e oculto de si mesmo. Em outras palavras, escreve ele, necessitamos de um telescópio mais potente, o da consciência utópica afiada, para atravessar justamente a proximidade mais imediata, assim como para atravessar o imediatismo mais imediato”
(...) Será que esta bandeira do Oiticica já virou cinza? O que ainda nos resta? A única resposta possível talvez seja a de Pierre Naville e que se tornou célebre na pluma de Walter Benjamin. Segundo eles, nossa missão seria a de organizar o pessimismo. Walter Benjamin é explícito ao dizer que organizar o pessimismo significa descobrir um espaço de imagens no campo da conduta política (política da imagem). (...) Naville defende a ideia de um pessimismo responsável e consequente indicando que a desesperança pode cumprir uma função importante no cenário político. Faz uma certa crítica à esperança ingênua associada, segundo ele, aos aspectos medíocres de uma época. Neste sentido podemos dizer que Naville propõe um pessimismo ativo e que precisa encontrar seu prumo. “É preciso organizar o pessimismo, ou melhor, já que não se trata de submeter-se a um chamado, é preciso deixar que ele se organize.” (NAVILLE, 1975,p. 117) O desafio colocado em cena seria o da necessária resistência ao que ele nomeia como tirania do futuro. Contudo, a questão que fica é justamente de saber como é possível injetar potência utópica na desesperança. "
Trecho do texto de autoria de Edson Luiz André de Souza, que me fez voltar às relações da implicação da arte e da psicanálise com os processos sociais, o movimento Psicanalistas pela Democracia, e cogitar uma especialização na área, ao término da graduação.