Enamorava-me dela sem saber quem era... O tema da saúde sempre flertou comigo, eu sempre flertei com ela, numa relação de devoção e fúria, meio Don Quixote e seus moinhos de vento, meio Dulcinéia a espera na torre, ou por vezes Sancho Pança, fiel companhia pelas andanças mundo afora...
A primeira experiência com a graduação acadêmica foi nas Letras da USP - ensaio para as deflagrações, visto que a USP é um barril de pólvora - mas aos 19, eu queria mesmo ser musicista... Então quis viver sozinha, e aos 24 a vivência da maternidade me colocou de frente com ela - a vida, a saúde pública, a finitude - e os dias que se seguiram tinham cores muito reais. Separações, criar uma filha praticamente sozinha, e mais as lutas que a gente veste como peles que se aderem à própria pele, para transformar em armaduras. Voltar à academia era um imperativo para renovações, e viver algumas paixões mais, para não se deixar sufocar. Desta vez foram as Artes Visuais, que deram conta das epifanias poéticas, sinestésicas, em um ambiente rico e criativo, que me proporcionaram grandes encontros, amizades, insurreições - ocupamos o prédio do Instituto de Artes da Unesp por duas semanas, quando do decreto do decrépito então governador à época, José Serra, que pilhava a autonomia das universidades públicas de São Paulo. A partir daí, toda ocupação pública tem um lugar cativo em mim, remetendo a pessoas que se unem em manifestação, pois o mundo é belo, mas é lugar de luta. Ficar mais outros tantos dias na ocupação da Funarte, quando da redução para 30% do orçamento para a cultura - e que cultura é essa? elitista? elitizada? e a arte que brota e das ruas, da identidade do povo brasileiro? das periferias, tão injustiçadas?
A filha crescia, a urbe encarecia, decidimos por uma ruptura para colher memórias de infância para ela, de um mundo que também vive o risco de extinção: o rural. Fomos viver em uma fazenda de café, numa casa de colono alugada, sem laje nem forro, só o telhado cru, mais as paredes e janelas que não se compram feitas, e que também aprendi a fazer. A menina tomou banho no "córguim" que cruzava o pasto, nos acabamos com a época das jabuticabeiras, banana era no quintal de casa, sem telefone e televisão, ônibus trêz vezes por dia mas só cinco dias da semana, e ia uma vez por semana para São Paulo, trabalhar em uma escola, mas a maledicência do povo não é fácil, "como é que ganha a vida uma mulher largada do marido?", mudamos para outra fazenda, mais longe, mais Minas Gerais, as geraes que viraram paisagem e música em mim e para onde, um dia, hei de voltar. E mais vida, mais experiência na bagagem, ter olhado outras realidades diversas que dinheiro nenhum paga.
Bons ventos e um bom amor, optamos por sair da paulicéia que estava a virar sertão, retirantes do sudeste brasileiro que somos, viemos para Porto Alegre. "Tem um curso novo, Saúde Coletiva, na universidade federal, por que você não presta? É a sua cara". Com a pulga atrás da orelha, eu que já andava bem descrente do baile de cobras da academia, decidi tentar. E porque viver é impreciso, intempéries com a saúde na família, me restaram apenas as madrugadas para estudar, relembrar, as madrugadas anteriores aos dias do concurso vestibular da própria UFRGS. E não é que passei? Só isso, por mim, já estava bom, mas ainda inventaram de querer saber o "como": primeiro lugar. O sistema é injusto, a meritocracia é uma merda, mas eu merecia uma cerveja.
Só pode ser predestinação - para quem acredita. Enfim pude entender qual é a do Quiron na casa 6, no mapa astrológico natal.
Completamente apaixonada pela tal da Saúde Coletiva, que está um tanto mais à esquerda da Saúde Pública, constelando as minhas inquietações, minhas militâncias, minha sede de conhecimento, de mudança, de vida. Até que enfim uma graduação onde eu caibo.
E a canção que nomeia esta postagem, porque quem guerreia precisa nutrir a alma, para seguir sem desistir.
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