Diálogo com Cultura Indígena Guarani-Mbyá


Em meio aos estudos da UPP de Saúde, Sociedade e Humanidades, quando discutíamos o conceito de alteridade, o Museu da UFRGS realizou a 3ª Edição da Atividade de Extensão Diálogo com Cultura Indígena Guarani-Mbyá, da qual participei.


Minha paixão pela questão indígena vem de longa data: lembro-me, quando era pequena, que minha mãe comprou um livro (do antigo Círculo do Livro, quando as pessoas ainda compravam livros por catálogos, ao invés de cosméticos) chamado Sting na Amazônia, no qual registrou-se a experiência da visita do cantor ao Xingu, tendo sido recepcionado pelo cacique Raoni, que dizia, em algum momento do texto, que "se querem que os índios continuem a existir com sua cultura, respeitem suas terras e permitam que vivam o seu isolamento". O livro era muito interessante, e abordava os problemas com o desmatamento, a demarcação de terras, animais e culturas em extinção - eu devia ter uns 7 anos à época, logo, estamos falando de 25 anos atrás... e a leitura daquele material me deixava muito angustiada: a simples palavra "índio" me remetia a algo muito ancestral, sábio e sagrado, como poderiam exterminar aquelas pessoas? No colegial, mais uma vez, pude estudar um pouco mais sobre a questão, sobre como os sertanistas se tornaram indigenistas, o paradoxo da catequização, sobre uma tribo indígena cujos adornos corporais eram feitos de modo a deixá-los semelhantes aos animais que admiravam (a onça, por exemplo), lembro-me do quanto fiquei tocada com uma foto de uma índia amamentando seu filho e também um filhote de porco selvagem. E, novamente, na graduação em Artes Visuais, pude estudar sobre os grafismos indígenas da tribo assurini, e sua complexidade e concisão formal que deixariam qualquer semioticista encantado.

Me inscrevi na atividade, cujo 1º encontro foi uma roda de conversa com o cacique da tribo que nos acolheria, em Itapuã: Vherá Poty, um jovem de 27 anos, de belos e longos cabelos negros, uma expressão forte, que foi designado o chefe de sua aldeia aos 19 anos. Vestia calça jeans, tênis, camiseta, usava celular, e logo começou, taxativo: "Se vocês esperavam encontrar um índio pelado, de cocar, esta tarde, e se decepcionaram, preciso lhes dizer: eu não preciso tirar a minha roupa nem para ser índio, nem para provar que sou índio". E seguiu com uma fala muito articulada, coerente, as quais anotei os pontos que mais me marcaram: 

- sobre as pesquisas acadêmicas realizadas com os indígenas: em geral, há pouca participação da comunidade sobre a relevância de estudo daquele tema (não causam impacto à comunidade indígena), e ou são muito românticas, ou muito negativas;

- na língua, nos costumes, e sobretudo na espiritualidade se concentra a identidade indígena, "Nossa forma de viver é a forma como resistimos";

- o choque com a experiência da "adolescência" do homem branco: não há esta fase da vida para um indígena, o que separa ou diferencia uma criança de um adulto é o conhecimento que é validado pela comunidade. A fase da vida que vai dos 12 aos 20 anos, para os indígenas, ao contrário dos adolescentes brancos, é um período marcado pela experiência do silêncio, "saber falar o que é suficiente e importante, mas ouvir de tudo e saber diferenciar o que é importante e o que não é necessita da experiência do silêncio";

- como cacique, ele deve fazer as escolhas pelo coletivo, e a comunidade é um coletivo uno, onde as decisões são consensuais, "não somos democráticos: na democracia é sempre a relação de uma maioria que impõe suas escolhas sobre uma minoria";

- sobre o fato das mulheres indígenas serem menos 'ativas' nas relações políticas com os homens brancos, Vherá Poty disse que "a política é uma grande mentira, e as mulheres guarani não estão acostumadas com a mentira. Elas são mais reservadas, e as protetoras de sua cultura. Não posso falar do papel da mulher, porque este papel é da mulher, e eu não posso falar por elas, apenas que, quando estão menstruadas, dizemos que elas estão de namoro com a Lua".

O objetivo deste evento, segundo o cacique, é sensibilizar as pessoas para as questões indígenas, sobretudo os gestores, mas também as crianças e os jovens, para que, quando forem formular as políticas para as comunidades indígenas, não o façam sem nunca ter tido contato com a cultura indígena. "A invisibilidade dos indígenas é o que pode nos ameaçar". Ele disse outras coisas ainda interessantes, como a supremacia de seus saberes e sua medicina tradicional sobre a escola e a medicina dos homens brancos. Vivem na aldeia 75 pessoas, e o reconhecimento que a comunidade tem para com alguém é proporcional ao respeito que esta pessoa tem pela comunidade.

E terminou a palestra com a melhor lição sobre alteridade que pude receber neste início de curso: perguntou a algumas pessoas presentes o que elas gostariam de ser, uns disseram que queriam ser pássaros, outros que queriam ser árvores, ao que ele respondeu:

"Isso é bom, pois se vocês desejam ser pássaro, ser árvore, isso implica que vocês precisam deixar que os pássaros e as árvores existam. Eu, neste momento, quero ser eu mesmo, e que vocês sejam vocês: eu sou quem eu sou dentro da história de vocês, como desejo que vocês sejam vocês dentro da minha história".

A segunda etapa do encontro foi a própria visita à aldeia, onde fomos recebidos em um ritual próprio, muito bonito de se ver e participar. Me emocionei em vários momentos, sobretudo com as crianças - a infância das crianças indígenas é algo muito precioso, lúdico e alegre, como já não vemos entre as nossas crianças. Estão sempre rindo, brincando, olhando tudo, curiosos.

Pretendo participar novamente desta atividade no ano que vem. Aguyjevete!

imagem: Vherá Poty


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