O projeto pedagógico da EPA: a escola como promotora de direitos, a arte como promotora de saúde

texto escrito para a exposição E do Barro Fez-se a Vida


Conhecer a realidade e as realidades acolhidas pela equipe de educadores da Escola Porto Alegre tem como imperativo apenas uma condição: demorar-se. Estar naquele espaço mas não apenas como um corpo em trânsito, mas em relação. E naquilo que se atrela à humana tarefa de relacionar-se, emerge talvez o maior dos medos contemporâneos: estabelecer vínculos.

Mas engana-se quem pensa que este é um terreno em que se habilitam principiantes - para o público que frequenta a EPA, viver é um ato de coragem, e estar diante desta qualidade de ser vivente requer de si outros requisitos que buscarão em trajetos ancestrais de nossa própria existência coletiva as habilidades para tal: saber olhar, saber escutar e procurar compreender o possível diante do complexo. Apenas os tolos procuram apreender a complexidade do trabalho realizado na Escola Porto Alegre em números; os parvos tentariam desenhar um gráfico...

À parte a obsolescência do paradigma cartesiano para os desafios do mundo atual, é preciso dizer que o projeto pedagógico da Escola Porto Alegre é uma iniciativa de vanguarda, que já praticava o que hoje se denomina como metodologia democrática, com um desafio maior a ser transposto: derrubar as paredes do preconceito, da alienação social e do determinismo moral. Acolhendo aos que resistem à catarse civilizatória de uma sociedade que não colocou os direitos sociais na base estrutural da qual derivam todos os outros direitos, a EPA estabelece uma sinergia entre diversas políticas públicas que a torna um exemplo a ser observado, estudado e implementado em muitas cidades do país onde se constata a existência não apenas da população em situação de rua, mas populações vulneráveis em geral.

Desta proposta, cuja atualidade e necessidade são inques-tionáveis, destaca-se a experiência do Núcleo de Trabalho Educativo, e o que nos chamou a atenção de maneira irrefutável foi o diálogo simbólico e temporal com outra experiência de extrema relevância histórica: o trabalho realizado nos ateliês de terapia ocupacional coordenados pela médica Nise da Silveira, onde “criações de si”, surgidas da emoção de lidar com matérias e materiais tentam “reconstruir uma realidade psíquica habitável”.

Ciente de que o acervo das obras produzidas no NTE (ou, ainda, o que ficou guardado no acervo, já que muitas foram comercializadas ao longo do tempo, a preços abaixo do seu valor artístico) merecem uma análise crítica à sua altura, resgatando os apontamentos estéticos de Mário Pedrosa de uma arte viva, necessariamente vital, constituinte de valores que possam ser compartilhados, não seria leviano afirmar, desde já, que o que se vivencia nas dependências da EPA forma o elo entre as propostas de Paulo Freire para a educação, a arte como exercício experimental de liberdade de Pedrosa e a antipsiquiatria de Nise da Silveira. É uma conversa entre libertários, certamente.

Sobre os estudantes, se não são a prova viva de que as apostas em um projeto terapêutico singular possível, na clínica ampliada e compartilhada de forma interinstitucional e na humanização são as melhores escolhas a serem feitas, cabe a nós contemplá-los como aquilo que são: seres dotados de muita potência criativa e, enquanto artistas, segundo a própria Nise, “homem coletivo, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade".

Há muitas maneiras de viver neste mundo, e apenas um mundo em que todos nós podemos viver - o que urge é que o significado do humano seja resgatado para não ser confundido com a barbárie.

Das ruas eclode o significado da coexistência.



Lara Yelena Werner Yamaguchi
artista e graduanda do Bacharelado em Saúde Coletiva /UFRGS




"é o processo instaurado na forma da expressão livre, o prazer encontrado pelos criadores numa prática com implicações poéticas de grande intensidade emocional e cognitiva, que constitui uma ameaça para o equilíbrio das instituições disciplinares, intrinsecamente voltadas para a anestesia da sensibilidade e a paralisia do pensamento, a docilização do corpo e o castigo do espírito." *

João A. Frayze-Pereira
professor livre-docente do Instituto de Psicologia da USP
e psicanalista do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira
de Psicanálise de São Paulo

Frayze-Pereira, João A.. (2003). Nise da Silveira: imagens do inconsciente entre psicologia, arte e política. Estudos Avançados17(49), 197-208. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000300012

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