"Atravessar Desertos"


 "Um deserto não se atravessa sozinho. Diante destes cenários que tentam nos inundar de paralisia e conformismo anestesiando o que temos de mais precioso, ou seja, nossa direito a revolta, nossa potência de desejar, nosso dever para com nossa imaginação, neste ponto é sempre importante evocar o que nos lembra Ernst Bloch em sua trilogia Principio Esperança quando tenta discorrer sobre a função das utopias na historia da humanidade: “A consciência utópica quer enxergar bem longe, mas, no fundo, apenas para atravessar a escuridão bem próxima do instante que acabou de ser vivido, em que todo o DEVIR está a deriva e oculto de si mesmo. Em outras palavras, escreve ele, necessitamos de um telescópio mais potente, o da consciência utópica afiada, para atravessar justamente a proximidade mais imediata, assim como para atravessar o imediatismo mais imediato”

(...) Será que esta bandeira do Oiticica já virou cinza? O que ainda nos resta?
A única resposta possível talvez seja a de Pierre Naville e que se tornou célebre na pluma de Walter Benjamin. Segundo eles, nossa missão seria a de organizar o pessimismo. Walter Benjamin é explícito ao dizer que organizar o pessimismo significa descobrir um espaço de imagens no campo da conduta política (política da imagem).
(...) Naville defende a ideia de um pessimismo responsável e consequente indicando que a desesperança pode cumprir uma função importante no cenário político. Faz uma certa crítica à esperança ingênua associada, segundo ele, aos aspectos medíocres de uma época. Neste sentido podemos dizer que Naville propõe um pessimismo ativo e que precisa encontrar seu prumo. “É preciso organizar o pessimismo, ou melhor, já que não se trata de submeter-se a um chamado, é preciso deixar que ele se organize.” (NAVILLE, 1975,p. 117) O desafio colocado em cena seria o da necessária resistência ao que ele nomeia como tirania do futuro. Contudo, a questão que fica é justamente de saber como é possível injetar potência utópica na desesperança. "

Trecho do texto de autoria de Edson Luiz André de Souza, que me fez voltar às relações da implicação da arte e da psicanálise com os processos sociais, o movimento Psicanalistas pela Democracia, e cogitar uma especialização na área, ao término da graduação.

http://psicanalisedemocracia.com.br/2017/01/atravessar-desertos-por-edson-luiz-andre-de-sousa/

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